“Outsiders” é um intento sobre a liberdade de se aventurar em experiências inusitadas, é sobre não se encaixar em padrões determinados, é expressar a autenticidade da alma.

É sobre esse caminho desviante criativo que observamos o trabalho de quatro artistas que reinventam o fazer manual na confecção de diálogos urgentes, cenários fantásticos e uma perspectiva de olhar orgânico que desvela sobre fios e tramas.

LEILA ALBERTI E GIOVANA CASAGRANDE

Texto adaptado da entrevista com @leilaalberti e @giovanacasagrande

Giovana é natural de Realeza (PR) e a Leila de Quilombo (SC). Se conheceram na Escola de Belas Artes e Música do Paraná, em Curitiba. Trabalham em coletivo desde 2012, num projeto intitulado “Bordaduras”. Desde então, a arte e o fazer manual se manifestam em seus caminhos. Com exposições aqui no Brasil e EUA, elas buscam na experimentação de materiais, como cerâmica, porcelana, madeira, tecido e fios, uma linguagem que ressignifique a pintura: “Nos interessa falar sobre a mulher e sua relação maternal com a natureza: o cuidar, preservar e reutilizar”.

Em suas obras, adequam o bordado em sua linguagem mais expressiva e ressignificam esse conceito ao aplicá-lo sobre a porcelana utilitária. Dialogam, assim, com a dicotomia entre artesanato e arte, afetando o universo feminino, atrelando a isso o desenvolvimento de um conceito de gênero.

O fazer manual é uma herança de família das duas. Quando se encontraram para criar algo juntas, somaram à pintura essas habilidades, observadas e experimentadas já através de suas mães, tias e avós. “Criar é abrir-se para o desconhecido, transgredir e transformar. São estados de risco que desejamos experimentar para adquirir confiança, alcançar a entrega necessária, e adentrar no campo da criação.”

A ressignificação do fazer manual na obra de Giovana e Leila se dá quando elas se libertam de práticas usuais e experimentam um bordado gestual sem receitas pré-estabelecidas ou o uso de pontos com titulação conhecida. “Olhamos para os objetos como seres que contam histórias e é isso que lhes damos com o bordado.”

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Território Ocupado ao Norte (2018) / Final da Tarde no Pico Marumbi (2016)

“Ser artesanal é dar colo para um tempo diferente do cronológico. É observar com calma a natureza e as pessoas. O artesanal envolve mais do que fazer coisas com as mãos, implica diretamente na construção de si e das relações com o outro. Enquanto tecemos, bordamos ou costuramos somos convidados aos processos de autoconhecimento e resiliência. O fio é símbolo da vida nas mais diversas tradições e ele, assim como a linha no desenho, nos dá um início para a criação das narrativas na vida, sendo tecidas e retecidas dia após dia.”

CAMILA LOCKS

Texto adaptado da entrevista com Ca Locks

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A Camila se define uma mulher curiosa, inquieta, mas que também sofre um pouco de preguiça. Encontra no fazer manual um quebra-cabeça, onde pode colocar a sua criatividade em prática, livre de regras impostas e receitas. É onde ela diz aprender sobre erros e acertos, uma forma de tornar ambientes mais coloridos, acolhedores e com muita intenção.

O encontro com o artesanato se deu ainda criança, aprendeu a tricotar e a bordar ponto cruz com a mãe, mas a herança das habilidades é de toda a família. O crochê aprendeu já com 26 anos, mas a paixão mesmo foi quando ela descobriu o “yarnbombing” (é uma intervenção artística em espaços públicos com crochê ou tricô). “Desde então, eu teço muito, e por muito tempo teci todos os dias para atingir a qualidade do ponto e o conhecimento de formas que tenho hoje. O artesanal se manifesta em mim através da criatividade e de todos os benefícios que há nela.”

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Yarnbombing

Camila acredita que o movimento handmade é muito maior que apenas o objeto final, “é algo com história, que envolve processos orgânicos e naturais, é algo que valoriza o humano por trás de um objeto, é pensar o consumo de forma mais consciente, seja produzindo algo para si, para o outro ou comprando de quem faz à mão.”

Em sua arte, ela expressa criatividade e até rebeldia contra regras impostas, reforça a importância de não nos aprisionarmos da cobrança da perfeição e que a sua identidade é o que te faz autêntico e único.

“Ser artesanal é uma forma de carinho consigo e com o outro. Ë uma forma de valorizar artigos feitos com intenção, de forma mais responsável, consciente e sustentável de produção.”

KAREN DOLOREZ

Texto adaptado da entrevista com @karendolorez

Karen é uma artista visual têxtil e busca no seu trabalho um diálogo sobre o fazer manual e o feminino. Começou a fazer crochê timidamente, ainda quando criança, com sua mãe. Mas, só foi resgatar essa memória mais tarde, quando já morava em São Paulo.

Seu entusiasmo aconteceu quando ela compreendeu a possibilidade de conversar o crochê com a arte urbana, explorando o espaço da rua como a sua plataforma de expressão. Junto a isso, ela buscou dentro de si o desejo de interseccionar debates que importavam para ela, como política, questões de gênero e o feminismo.

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Flores da pele | Montagem da exposição "Corpo Inconstante"

Ela visualiza o crochê, o tricô e as artes manuais de modo geral, como um espaço, historicamente, de mulheres com seus simbolismos. Quando ela explora outro significado para o fazer manual, como expondo-o em paredes ou junto com grafites na rua, ela percebe outro sentido, refletindo sobre o espaço da mulher hoje no mundo, nosso posicionamento e liberdade de expressão.

Sua obra explora também o coletivo feminino através do fazer manual que, num contexto histórico, sempre foi um espaço de trocas entre mulheres, o momento de pausa e diálogo.

Poder se expressar através da arte, para ela, é se desapegar de uma única perspectiva de olhar, é proporcionar ao outro o seu olhar sobre a obra, é motivar emoções e sensibilidades e cocriar.

Sobre o fazer manual, ela sugere que um novo movimento vem surgindo, no qual as pessoas estão se refugiando no artesanal para desacelerar e fugir de uma era imediatista e caótica. “O artesanal acalenta a mente e traz mais equilíbrio para a vida.”

por Luana Esther Geiss

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Uma comunidade para conectar criativos artesãos, encorajar um novo olhar e para habilitar suas mãos num ritual intimista.

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